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PROJETOS SUSTENTÁVEIS

Oscar Siqueira, country manager da SolidWorks Brasil - alexcabral@gadcom.com.br

 

A tecnologia de CAD, especialmente 3D, quebrou paradigmas importantes nos projetos de sólidos mecânicos. Substituiu o trabalho braçal e abriu espaço para projetos mais inteligentes, criativos e funcionais. As últimas versões de software de CAD estão tão avançadas que realmente ajudam a produzir produtos superiores de forma mais rápida, sem erros, com menor custo graças a novas funcionalidades e tecnologias que foram incorporadas recentemente. Esse salto de qualidade trouxe no seu vácuo o convite para um passo adiante, um desafio: os projetos sustentáveis.

Mas o que é um projeto sustentável? É uma abordagem holística e abrangente para a criação de produtos ambientalmente benignos, socialmente justos e economicamente viáveis. Ambientalmente significa que o projeto deve oferecer benefícios ambientais óbvios ou mensuráveis; socialmente, que deve atender às necessidades dos clientes e ajuda-los a viver melhor; e economicamente, que deve ser competitivo em termos de mercado gerando lucro para a empresa.

Nos últimos 20 anos, uma onda crescente de países, empresas e indivíduos vem se avolumando em torno do tema sustentabilidade, que se traduz basicamente na preocupação com o futuro do nosso planeta. De acordo com a ONU, sustentabilidade é a capacidade de utilizar os recursos naturais da Terra sem comprometer o futuro das próximas gerações. Segundo o Instituto Akatu - uma organização não-governamental brasileira para educar e mobilizar a sociedade para o consumo consciente - a humanidade caminha para um beco sem saída.

Se o atual ritmo de exploração do planeta continuar, em um século não haverá fontes de água ou de energia, reservas de ar puro nem terras para agricultura em quantidade suficiente para a preservação da vida.  Hoje, mesmo com metade da humanidade situada abaixo da linha de pobreza, já se consome 20% a mais do que a Terra consegue renovar.

Se a população do mundo passasse a consumir nos mesmos padrões de países ricos, seriam necessários mais três planetas iguais a este para garantir produtos e serviços básicos como água, energia e alimentos para todo mundo. Como, evidentemente, é impossível arranjar mais três Terras, a única saída é todos adotarmos padrões de produção e de consumo sustentáveis.

Esse é o desafio lançado para cada engenheiro ou projetista. Além de criar produtos superiores do ponto de vista do design, da funcionalidade, da economia, é preciso pensar na sustentabilidade do planeta, como economizar em termos de recursos naturais, quais os impactos no meio-ambiente, os resíduos sólidos que gera, o descarte, sua decomposição, etc. Só com a ajuda da tecnologia é possível permanecer produzindo e faturando ao mesmo tempo em que preservamos o futuro. Não se trata de ideologia verde neo-hippie, mas de continuidade da vida e, conseqüentemente dos negócios.

 

O mundo ideal

Veículos com consumo eficiente de combustível, edifícios com aquecimento solar, usinas de combustão limpa, embalagens recicláveis e iluminação de baixa tensão são exemplos importantes de produtos que ajudam a equilibrar necessidades de consumo com bons cuidados ambientais. De fato, qualquer produto pode ser fabricado com a sustentabilidade do projeto em mente se os engenheiros quiserem realmente criar produtos superiores utilizando materiais menos perigosos para o  meio-ambiente. Entretanto, a natureza humana acredita ser mais fácil deixar tudo como está, mesmo diante de contra-argumentos persuasivos, como por exemplo, o fato de que empresas que planejam visando o futuro são mais lucrativas do que empresas reativas e defensivas.

É possível projetar pensando na reutilização ou reciclagem do produto ao final da vida útil. Por exemplo, o produto pode ser projetado em módulos de forma que uma peça possa ser substituída para atualizar sua função (repensar os celulares descartáveis colocando à venda uma placa de memória/função que possa ser substituída pelo próprio consumidor). É possível projetar produtos gastando-se menos matéria-prima, como por exemplo, alterar a espessura das paredes de uma peça de 13 mm para 10 mm sem comprometer sua funcionalidade, como o gabinete de uma TV de tela plana. É perfeitamente possível fabricar sem produzir resíduos perigosos, por exemplo, com a eliminação bem-sucedida de soldas à base de chumbo.

Nos anos 70, começaram a ser incorporadas as idéias de proteger o meio ambiente e assumir uma maior responsabilidade pelos produtos. Hoje, as empresas são cobradas para que promovam a diversidade, ajudem a recuperar o meio ambiente, combatam o trabalho infantil, monitorem a cadeia de suprimentos, promovam a saúde pública, gerem empregos e levem desenvolvimento para as comunidades em que atuam. 

Com um panorama claro, não há como postergar a adoção de projetos sustentáveis nas empresas. A Europa, por exemplo, está abrindo caminho para essa mudança na maneira de pensar, tendo recentemente proposto uma Política Integrada de Produtos (IPP, Integrated Product Policy), que, além de promover, impulsiona o desenvolvimento sustentável.

Em um relatório recente, a Cyon Research Corporation analisa essa abordagem: "O princípio central do IPP é que as maiores mudanças em termos de impacto ambiental dos produtos podem ser realizadas durante a fase de projeto ("início da linha de produção") e não através de eficiência dos processos, produção mais limpa ou gerenciamento da poluição ("fim da linha"). A União Européia calcula que mais de 80% de todos os impactos ambientais relacionados aos produtos são determinados durante a fase de projeto.

Como profissional e indivíduo, cada um de nós pode começar hoje mesmo a contribuir para a sustentabilidade do planeta. A cada projeto, pergunte: Qual é o custo das matérias-primas? Até que ponto o processamento e o tratamento são ambientalmente benignos? Que energia é necessária para utilizar esse material? Existe um material que custe o mesmo mas que seja mais fácil de reciclar? Existe algum material novo que seja tão resistente a ponto de podermos usar uma quantidade menor para fazer uma peça existente com a mesma durabilidade?

Os resultados de médio e longo prazo serão o impacto reduzido sobre o meio ambiente, redução nos custos de tratamento da água, menos resíduos para os aterros sanitários, prevenção da poluição do solo, do ar e da água, preservação das florestas e da biodiversidade e redução das alterações climáticas. Voltar