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INÚTIL DILEMA

Antônio Leopoldo Curi

 

No recente episódio da troca de ministros da Fazenda, na esteira de mais denúncias de corrupção, o Brasil assistiu a concorrido debate sobre os rumos e abalos que poderiam prejudicar a economia nacional. A discussão, porém, estava e continua desfocada, pois, independentemente de quem ocupe o cargo, os setores produtivos anseiam por uma política econômica orientada para o desenvolvimento e a prosperidade. E isto deve ser um compromisso do governo, a despeito dos membros de sua equipe. Porém, infelizmente a reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN), dia 30 de março, demonstrou que a mesmice monetarista continua imperando, como ocorre, aliás, há quase 12 anos. O recuo da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), de 9 para 8,15% continua longe de atender às necessidades de investimentos da Nação.

Perdeu-se excelente oportunidade para o início de uma virada. Seria muito bem-vinda uma queda mais acentuada da TJLP. É por isto que os setores produtivos não estão preocupados com a troca de ministros na Pasta da Fazenda, mas sim com a revisão de algumas diretrizes fundamentais da política econômica, em especial a relativa aos juros elevados como ferramenta de controle da inflação, um dos fatores que têm limitado o nível de atividades. Por isto, empresários e trabalhadores continuam esperando que o Copom, na análise da Selic, e que o CMN, nas decisões sobre a TJLP, tenham mais sensibilidade para assimilar os anseios de quem produz e trabalha, decidindo por uma queda mais significativa dos juros.

Os atuais índices têm conspirado contra o crescimento econômico, a geração de empregos e a multiplicação de investimentos. Por isto, não importa quem seja  o ministro da Fazenda. O que deve ser considerado, como evidência da necessidade de mudanças nas diretrizes, é o pífio crescimento do PIB de 2,5% em 2005 e as previsões de apenas 3,5% este ano, avanço ainda muito aquém das carências e potencialidades da Nação. Assim, a sociedade deve manter-se mobilizada em torno da meta da redução dos gastos públicos. Esta medida - prioritária e inadiável - propiciaria o controle da inflação sem juros altos, mais investimentos governamentais e privados e uma revisão do sistema tributário, outro fator que onera a produção e mina a competitividade do País.

Considerando essas premissas, espera-se que o governo sinalize, com responsabilidade e bom senso, um novo olhar sobre os problemas e oportunidades da economia brasileira.  Não podemos mais nos resignar à letargia e a evoluções ridículas do PIB, numa conjuntura mundial bastante favorável, como se o subdesenvolvimento fosse um desígnio imutável do destino. Ao contrário, temos de lutar, com eficácia, coragem e determinação, para que o Brasil cumpra o vaticínio de respeitados organismos internacionais, como a ONU, o Banco Mundial e o FMI, de que será uma das potências neste século.

Num cenário de expansão econômica muito baixa, como vem ocorrendo, é impossível reverter à gravidade do quadro social, promover a inclusão de milhões de pessoas no mercado consumidor e promover o desenvolvimento de um país com grandes dimensões territoriais e demográficas. Evidência muito clara disto é um recente estudo, que passou um tanto despercebido: a New Economics Foundation (NEF), instituição independente de pesquisa com base na Grã-Bretanha, demonstrou que, mantendo o atual ritmo de crescimento, o Brasil somente atingiria o patamar de desenvolvimento e distribuição de renda das nações ricas daqui a  304 anos. É possível esperar?

 

Antônio Leopoldo Curi é presidente da Associação Brasileira da Indústria de Formulários, Documentos e Gerenciamento da Informação (Abraform).

 

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