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O BURACO DA INCOMPETÊNCIA

Contou-me o Jacobsen - professor e consultor organizacional - que o diretor-presidente de uma grande empresa no Sul mostrou-lhe um enorme buraco, cuidadosamente cimentado, escavado ao final do prédio fabril, dizendo : " Veja, professor, aqui não se perde nada, tudo que se quebra, tudo que não passa no controle de qualidade, todo nosso desperdício é aqui jogado..." E, orgulhoso, acrescentou: claro, a maior parte é reaproveitada. Ao que Jacobsen comentou: presidente, não seria melhor tapar o buraco?

O empresário envaidecia-se de ter nos fundos da fábrica o enorme buraco para jogar todas as peças produzidas com defeito. "Aqui está a prova maior do meu controle de qualidade", dizia aos visitantes. Para ele, sua atitude era manifestação de honestidade, de comprometimento ético. Na sua ingenuidade, prejudicava a quem julgava proteger, pois o preço da sua "qualidade" era transferido para quem adquiria seus produtos. E o buraco, que hoje deve ser uma montanha, se não foi fechado, acatando as recomendações do professor, perpetua o desperdício, o qual, quando evitado, aumenta silenciosamente os ganhos e reduz os gastos.

O combate ao desperdício se aprende de forma indireta na infância, quando os pais ensinam aos filhos que não se deve colocar no prato mais do que se vai comer (hoje, a lição é dada pelos restaurantes que servem comida a quilo) ou mandam apagar a luz quando eles deixam o quarto. Porém nesses tempos de consumismo exagerado e produtos descartáveis, os conselhos domésticos se perdem e a criança se faz adulto sem saber o quanto perde e o quanto deixa de ganhar com o desperdício. Sim, Presidente, desperdício também é um problema ético. Busquemos o defeito zero.

Quem visitou um canteiro de obras teve oportunidade de perceber o quanto se perde em tijolos, pedra e areia para levantar um prédio ou uma casa, sem falar no cimento, sempre preparado além das necessidades da construção. Nas fábricas, acontece o mesmo, quando o pessoal da limpeza, ao fim do dia recolhe ao lixo uma infinidade de peças não aproveitadas ou danificadas. Nos escritórios, os cestos de papéis servem de indicador, isso em plena era da informática. No entanto, o desperdício maior, em qualquer ramo de atividade, é invisível. Trata-se do tempo, "matéria-prima" jamais recuperada. As reuniões, por incrível que pareça, lideram as estatísticas, pois carecem de objetividade. Convoca-se ou convida-se sem informar o por quê da reunião, os objetivos. Não listam os temas e nem fixam os horários, de início e encerramento. Fala-se muito, decide-se pouco. E o tempo, que não cobra honorários no presente, revela sua conta de perdas no futuro.

Assim, o combate ao desperdício exige um estudo minucioso do cotidiano das organizações e da sua atividade-fim, desde o chão-de-fábrica até a sala do presidente, do posto de saúde ao gabinete do ministro. Cortar e reduzir gastos que não alterem ou prejudiquem a produção e não desempreguem. A idéia básica é otimizar as atividades, torná-las mais ágeis, diminuindo os gastos. Pode ser, por exemplo, qualificar melhor o funcionário para a execução de tarefas sem perda de tempo ou material. Reduzir os mecanismos de comunicação interna, descentralizar a administração, transferir responsabilidades e, em alguns casos, terceirizar tarefas desvinculadas diretamente do processo produtivo.

Com essas e outras medidas, respeitando as especificidades de cada empresa e os seus objetivos futuros, é possível e necessário desenvolver um processo de combate ao desperdício. Os resultados, em alguns casos, são imediatos e em outros aparecem a médio ou longo prazo. O importante é localizar e extirpar os pontos problemáticos, com a finalidade de aliviar a parte mais sensível do balanço das organizações: as despesas, os gastos.

De fato, o Brasil já tem buraco demais, em excesso. Ainda agora descobriram um nos céus pelos radares dos controladores de vôo. Só que esse, por não o taparem, matou uma centena de pessoas.

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